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June 24 Fala sééééério.........Parece mentira, mas está lá, no site do jornal Crítica: http://www.criticadigital.com/fumado/. Hay que tener huevos para abrir um blog assim, não? Destaque para o post do dia 29 de maio... June 22 Menos dois...'Stamos em pleno mar...
Na verdade, não é mais que o Rio da Prata. Rasas águas divisórias. Vão dormindo, provavelmente. Que a noite se estendeu além do previsto. E ninguém quis interromper, ninguém quis que acabasse. É que certas coisas não devem ter fim, mesmo que aparente. Há que deixar que passem, que corram.
Como estes dois últimos anos. Céus! Dois anos!
Lá vão eles, dormindo sobre as águas barrentas do rio. Me pergunto se Fidel também dorme.
Eu me despertei cedo. Fiz um chá (Icke, aqui custa menos de $0,50). Organizei as malas que ficaram de recordação. De volta à rotina. Da qual eles já não fazem mais parte.
Pelo menos, por enquanto.
Sentirei saudades destes dois amigos, de pouca intimidade, mas de sinceros sentimentos.
Boa viagem, queridos. Google bless you. June 15 Verosímil Serán líneas violáceas, estas. Quizás sean borrosos sus mensajes, sus sentidos. Quizás sean producto o efecto del alcohol o del THC. O de los dos, lo más probable. Quizás sea sólo el efecto que le imprime mi ánimo a mi alma. Tan equiibrada, tan medida, tan neutral. Siempre intentando serlo. Lo que es cierto es que son líneas de verdad. Que me escapan por los poros porque el cuerpo contenerlo tanto ya no puede. Que es cuerpo frágil, débil, cansado ya de contener a los amores de una juventud tan voraz y tan ingénua. Y se le escapa. Entredientes se lo ve decir. Que pide. Que leas estas líneas. Y que sepas que son para vos. Violáceas, quizás. Bohemias, quizás. Incompletas, confusas, desconexas. Ciertamente. Y aun así para vos sola son. Y que no desean más que acercarse a tu oído. Y a la piel que lo reviste. Para vos sola son. June 06 Tudo por acasoShow do Lenine em Buenos Aires...
Precisa dizer mais? E quando ele cantou Miedo, voltei a Brasília, à greve de 2001/2002 e a um velho cassete, que me pergunto nas mãos de que amor se encontrará... "El amor que me darías, transformado volvería, a darme las gracias"... Salve Drexler. Tudo por Acaso Lenine Eu sei! Tudo por acaso Tudo por atraso Mera distração... Eu sei! Por impaciência Por obediência Pura intuição... Qualquer dia Qualquer hora Tempo e dimensão O futuro foi agora Tudo é invenção... Ninguém vai Saber de nada E eu sei Pelo sentimento Pelo envolvimento Pelo coração... Eu sei! Pela madrugada Pela emboscada Pela contramão... Qualquer dia Qualquer hora Tempo e dimensão O futuro foi agora Tudo é invenção... Ninguém vai Saber de nada E eu sei Por qualquer poesia Por qualquer magia Por qualquer razão... E eu sei! Tudo por acaso Tudo por atraso Mera diversão Mera diversão... Qualquer dia Qualquer hora Tempo e direção O futuro foi agora Tudo é invenção... Ninguém vai Saber de nada E eu sei!... February 28 É um pouco sozinho... Impacientes com o ano bissexto, as águas de março decidiram cair antes, transformando as ruas de Buenos Aires em caudalosos rios. Levam ao mar as recordaçoes deste verao inesquecível e tao intenso. Enquanto um aviao leva de volta à casa uma amizade que ansia a chegada do inverno. Vou sentir saudades de você. Até logo! February 26 Acabou. Boa sorte. Voltando, no aviao, ouvia "Tribunal de Causas Realmente Pequenas", do Patu Fu. Também pensava nessa música da Vanessa da Mata, com o Ben Harper, "Boa Sorte". Poderia pensar em tantas mais... A vida está cheia de trilhas sonoras. Mas o silêncio, às vezes, é muito mais sincero do que certas palavras. Nada foi em vao. Nenhuma lágrima, nenhuma dor. De alguma maneira, tudo me trouxe até aqui. Mas, agora, eu prefiro seguir sem isso. É só isso. Nao tem mais jeito. Acabou. Boa sorte. Sao só palavras. E o que eu sinto nao mudará. February 20 ¡Aguante Coase! "En mi juventud se decía que lo que era demasiado tonto de ser dicho podía ser cantado. En economía moderna puede ser puesto en matemáticas." R. H. Coase, 1994 (1988). "Notas sobre el problema del costo social", en La Empresa, el Mercado y la Ley. Alianza: Madrid. p.186. February 19 Pendejo de mierda Tenho tentado dormir e nao pensar. Tenho tentado me concentrar nos estudos. Tenho tentado me concentrar na rotina, em alguma rotina, em alguma coisa. Tenho tentado. Tenho buscado o cansaço. Tenho buscado a alegria. Tenho buscado - quem diria - uma promessa de amor. Tenho buscado o delírio. Tenho buscado. Mas tudo tem sido inútil. Tudo tem sido vao. Porque quando chega o cansaço, quando se abrem os livros, quando chega o delírio, quando se desdobra a rotina, está aquela voz que diz: Tudo foi inútil. Tudo foi vao. E nao posso evitar a dor de sentir. Por mais que tudo ao redor me diga: Você está errado. Sou errado, é o único que escuto. (On sunday I´ll be flying high. On monday I´ll be digging deeper. Let´s hope on tuesday I´ll be back to something liveable.) February 06 Green skiesE, de repente, se está assim. Será o sono. O cansaço. Serei apenas eu... Apenas eu fui. - Hablá cristiano. Ya sabés que soy ateo. A penas fui. -... Pero no te apenes. Al contrario, regálame una sonrisa. - A penes fui. ¿A penes fuiste? Está buena esa. ¿Y? ¿Le gustan las ballenas? - Sim... as vaginas. No, las ballenas. - Sí, las llenas. ¿Las llenás? - No, la llena él. Te pasaste. - Es que nunca sé dónde bajarme. A mí, subime. Que se me baja solo. Y me dan unas ganas de llorar. - Pará Paralo. - Paralelo. Paralelepípedos. - Paralelas pipas. Ceci n'est pas une pipe. - Celle là n'est pas moi. Je suis le roi. - Qui est ta reine? - Pas Quiqui. - ¿Paquita? ¡Pará! - Alors, qui est ta reine? Sirène. - Sirena. Wow wow wow. - No, serena. Serena nao, moça. Já te disse. Tirame para arriba. - ¿Y te dejo caer? ¿Arriba tuyo? - ¡Arriba, arriba! The green sky of my dreams. - Sueños raros los que tenés. Sí, ya sé... ni yo los entiendo... Quase um Segundo Herbert Vianna Eu queria ver no escuro do mundo Aonde está o que você quer Pra me transformar no que te agrada No que me faça ver Quais são as cores e as coisas pra te prender Eu tive um sonho ruim e acordei chorando Por isso eu te liguei Será que você ainda pensa em mim? Será que você ainda pensa? Ás vezes te odeio por quase um segundo Depois te amo mais Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo Tudo que não me deixa em paz Quais são as cores e as coisas pra te prender? Eu tive um sonho ruim e acordei chorando Por isso eu te liguei Será que você ainda pensa em mim? Será que você ainda pensa? February 05 Yo quería que ella no tuviera miedo. Yo quería que ella no tuviera miedo. De la misma manera que alguien alguna vez me lo ordenó. No tengas miedo, no está bueno. Querría ordenárselo y que ella lo obedeciera. No a mí, ese yo encarnado, sino al intangible, a ese ¿sentimiento? que está dentro mío y que está en todas partes (¡qué bueno estaría!). Dejame que te invite. Que mi invitación no es más que una retribución a la que me hacés vos. (¿)Aun sin saberlo(?). Dejame retribuir. Sin miedo. Ni vos. Ni yo. (Cuando nos civilizaron, nos enseñaron a temer a las palabras. Y sin embargo nos encadenaron a ellas. ¿Pero qué son las palabras? Son sólo palabras. Y todo a la vez.) Alguien alguna vez me lo ordenó. No tengas miedo, no está bueno. Ella sabía lo que decía. Ella sabía lo que sentía. Ella y yo. Y que no era lo mismo. No le importó la diferencia. Quizás porque sabía que lo que es sincero no puede ser malo. Quizás porque sospechaba que ni la diferencia más grande es suficiente para distinguir eso que con tantos nombres se nombra. Quizás porque los malentendidos no sean tan malos... ¿para qué entender, al final? Obedecé a eso que me te lo mueve. Metételo. Y soltate. Listo. Y me dan unas ganas de llorar... Pero no te preocupes. No tengas miedo. No es malo. Es lindo. Veraz. ¿Verás? February 01 25 pirulos E aqui estamos nós... Uma dor de cabeça terrível, sono, o corpo pedindo arrego, mas o espírito pedindo mais. É verdade que eu nao dou muita bola para aniversário. Mas também é verdade que adoro receber telefonemas de pessoas queridas, com as quais nem sempre tenho a oportunidade de falar. Também adoro ter um pretexto mais para reunir os amigos, com tudo que isso implica: muitos "causos" regados a bom humor - e um pouco de vinho... Enfim, assim completei meu primeiro quarto de século. E me orgulho de dizer: até aqui, fui feliz. Obrigado aos que estao ao meu lado, hoje e sempre. Vocês sao os responsáveis da minha felicidade. (Icke, Agus, Pedrín, Virginia, Marina, Carol, Milena, Daro, Vero, Francisco, Adriana, gracias por haberme regalado vuestra compañía. Los quiero a todos, de verdad. Claritchas, Fabi, Cashew - e também os vacos do Pato e da Theys: nao é a mesma coisa sem vocês aqui! Minha mae, minhas irmas, minha vó e tio Fernando: morro de saudades. Obrigado por tudo. Meu amor é incondicional.) January 22 Recuerdos y promesas de un vaso azulFue casi un miedo. Casi un suspiro, quizás. Un aliento. Brisa.
Fue casi nada. Como si, por un momento, la nada pudiera medirse en algo enormemente palpable, sensible. Eso fue. Y en la amenaza de un fulgor tímido e inusitado de unos ojos cansados, en una sonrisa que inadvertida se escapa de los labios cerrados, se hizo abundante, fértil, voraz. Tan pronto como eso. Zás. Y así se fue. Casi un alivio. Casi un gemido, quizás. Un sollozo. Tierra. Casi nada. Y, aún así, tan lindo. Tan hermoso. De la ómega, se vuelve a la alfa. January 16 A EstradaDe volta à Ciudad de la Furia, com apenas uma canção na cabeça.
Depois eu escrevo mais...
"Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui Percorri milhas e milhas Antes de dormir, eu não cochilei Os mais belos montes escalei Nas noites escuras de frio Chorei A vida ensina e o tempo traz o tom
Pra nascer uma canção Com a fé do dia-a-dia encontrar solução Encontrar solução Quando bate a saudade, eu vou pro mar Fecho os meus olhos e sinto você chegar Você chegar Quero acordar de manhã do teu lado
E aturar qualquer babado Vou ficar apaixonado No teu seio aconchegado Ver você dormindo e sorrindo É tudo que eu quero pra mim Tudo que eu quero pra mim Quero Quero acordar de manhã do teu lado E aturar qualquer babado Vou ficar apaixonado No teu seio aconchegado Ver você dormindo é tão lindo É tudo que eu quero pra mim Tudo que eu quero pra mim Meu caminho
Só meu Pai pode mudar" (Cidade Negra) December 21 Fechando para abrir novo.Essas coisas de fechar o ano. Sabe como é. Inevitável nao fazer um balanço. Talvez, se não houvesse as férias no meio de tudo, eu nem faria nada disso. Mas com a perspectiva de embarcar no sábado e aproveitar três semanas no Brasil, a ruptura na rotina acabou me levando a realizar esse exercício de revista de auto-ajuda...
E não sei se são as medidas que eu uso para pesar o mundo, mas a verdade é que o prato sempre pende claramente para o lado positivo. Custo a aceitar a pecha de pollyanna, tanto como me recuso a acreditar em todas outras síndromes. Há tantos nomes que se podem atribuir ao que não é nada mais que ser humano... E sou assim. Por um lado, completamente obsessivo. Por outro, mais etéreo que o próprio ar. A mesma massa que vai definindo meus rituais, determina o que relevar e o que, simplesmente, deixar que exista, porque um dia foi... Nunca o olvido - porque isto nunca se escolhe - resignação, talvez. E tratar de seguir adiante. Keep walking, eu já disse e volto a repetir. Eu realmente acredito nisso. Em todo o resto, sei lá. Não sei se devo saber. Só não quero deixar de sentir. Pd: o balanço do cartão tá bem mais vermelho que o da vida, mas enfim, de alguma maneira tem que acontecer o equilíbrio, não? E estou convencido de que uma barraca, uma mochila e um saco de dormir sao excelentes investimentos a curto, médio e longo prazo.
Immerse your soul in love. December 14 Estou para divagações...Eu te disse que este era um mundo estranho... É que eu fico pensando nas palavras. Depois que elas já deixaram de ser o que um dia, talvez, tenham sido. Foram? Enfim, eu fico assim... Divago. E digo coisas sem sentido. Mentira. Coisas que são apenas sentido. O que não há que buscar são significados. Não existe nada além da mera sensação, efêmera, equívoca, única.
Não creio em significações. Acho que é por isso que depois, pensando, repetindo, pensei que seria mesmo bom patinar. E cair. Uma vez - mais de uma, mas uma vez parece que soa melhor - patinei. Meu corpo tem guardado em si o gozo da queda. Do movimento e da intensidade do atrito. Do calor que produz a superfície fria em contato com o equilíbrio desfeito. Mas melhor é andar a cavalo. Cavalgar. Saltar. Sinto falta disso, sabe.
Sei lá. Fiquei aqui pensando. Deve ter sido a música. O rock. O fato de estar sozinho e não ter nada além da música. O rock... E que boa música. Eu acho que eu queria compartilhar. E não encontrei melhor maneira que as palavras.
Patinei.
Acho que também foi o choripan. E o chimichurri... Enfim. Fui tudo.
Que bobagem a minha, achar que essas coisas podem ser ditas. Que bobagem a minha, insistir na busca do fim da minha idiotez. Resigna, marcelo. Cala.
Ps: adorei o show do Fito & los Fitipaldis. Viva España! December 11 Blow me upÉ preciso escrever. Porque os dias vao passando e as coisas vao passando e, no final, tudo já passou. É preciso escrever para que tudo fique registrado. Eternizar. ?. Sao também as palavras expressoes efêmeras. Sao e, logo, des-sao. Eu já escrevi isso, alguna vez, em algum lugar. Alguém leu?
É preciso escrever mesmo assim. Porque ao fazê-lo, sinto-me mais humano. Com tudo o que isto implica. É mentira. Eu sei. Mas quem disse que a humanidade está composta de verdades? O contrário. Desconfio. Sou mineiro, você sabe. Escrevo porque preciso respirar. Preciso de um momento. Nem que seja para colocar essas coisas soltas, desconexas, desconectadas. Eu, que já nao sei muito bem a quê estou conectado. Se é que existe algo. Sao de volta tudo perguntas. E milhoes de respostas que soam tao certas como o cair da noite, que, no verao, chega mais tarde. E, às vezes, parece nao chegar nunca. E vou me revezando entre noites de desesperante insônia com outras de profundo sono. Igualmente desesperantes. É que já nao sei se há quem fechar ou abrir os olhos. Para olhar para quê? Dentro? Fora? Às vezes, mesmo essa fronteira parece desdibujada. Sei que nao se diz isso em português, mas eu gosto da palavra. É bonita, nao é? Desdesenhar. Que nao é outra coisa que formar um novo desenho... Desdesenhado. Acho que estou me desdesenhando. E nao tenho a mínima idéia do que é isso. E, no meio de tudo isso, me incomoda profundamente o seu olhar. Ela que me olha com juízo, com desprezo. Quase pena? Quase raiva? Preferiria ser olhado com os olhos de blow-up. Amplia-me. Escreve-me. Nao necessariamente em algo legível. Nao necessariamente em algo comprenssível. Sensível, talvez, apenas. Crível. Simplesmente porque existe.
Escrevo. December 02 MineirinhoDe Clarice Lispector
"É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que esta doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.
Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar 'feito doido' de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porquê adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime . Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno". November 29 Congresso de BruxariaEla me responde: “immerse your soul in love”. Desconfio a deliciosa ironia em sua resposta, embora também exista a possibilidade de que esta seja uma referência a algo que, como tantas outras coisas, desconheço. Mas é que eu contei para ela de ontem. Centro Cultural Recoleta. Mesa Redonda sobre Clarice Lispector. Todo mundo sabe que é minha autora preferida (junto com Guimaraes Rosa). Mais de um amigo veio comentar comigo: “lembrei de você”. E, claro, lá fui eu. Nao estava tao interessado nas conferências, mas haviam prometido leituras... E eu estou lendo, pela n-ésima vez, Uma Aprendizagem. Também tá lá, na minha peça. Enfim, como diria o outro: “objetos trobados”. (ps. Outro dia tive um orgasmo quando pensei que, no livro, c.l. trocou Ulisses e Lorelei de lugar: amarrou a sereia no mastro e fez Ulisses cantar... nao que seja um achado, mas, enfim, cada um bate punheta conforme lhe convén, nao é mesmo?). O ponto é: lá fui eu. Legalzinho, tudo. Distribuiram uns contos traduzidos, escreveram umas frases na parede, enfim... Já inventaram a roda, nao é mesmo. Na platéia, cinqüenta pessoas, mais ou menos. E, eu, me sentindo mulher, negra e pobre: um homem, com menos de cinqüenta anos e que nao tem nem doutorado, nem mestrado, nem especializaçao, nem bacharelado e, na verdade, nem um cursinho rápido em Clarice Lispector ou qualquer coisa do gênero. Na mesa, Yudith Rosenbaum e Laura Hana. Aquela, brasileira, de fala doce, calma. Um vestido preto, simples, verao. Cabelos anelados, soltos, curtos. Óculos para ler. A otra, enfim, prefiro chamá-la bicho loiro. Argentina, poderosa, tailleur impecável, as madeixas douradas minuciosamente penteadas. Olhar firme no horizonte. Pediu que a anfitria repetisse a apresentaçao. E se enfureceu, sem perder a pose, naturalmente, quando a amiga se esqueceu de apresentá-la. Sua raiva aumentava a cada conto que a primeira citava, roubando-lhe uma a uma as cartas na manga... Enfim. Tem gente que confunde glamour com exu-berância... Depois falou uma tradutora de c.l.. Rápida, concisa, direta. Nenhuma palabra pouco interessante, nenhuma palavra fora de propósito. Talvez porque eu me sentisse acuado. Talvez porque eu achasse que aquele incômodo que eu sentia nao merecesse muita psicoanálise. Talvez simplesmente porque eu nao sei ficar calado. Falei. Uma pregunta, que tentou ser o mais breve possível, dentro dos meus limites de prolixidade... E perguntei se elas nao achavam que dizer que os conflitos das personagens de Clarice eram conflitos femininos nao era dizer algo que a autora jamais havia suposto... Que, eu achava, inclusive, que ela jogava com esses mesmos conflitos em seus personagens masculinos (e só pensava em Ulisses. E em mim, que nao sou personagem, muito menos de Clarice, mas bem que poderia ser...). Foi o suficiente para o que mundo viesse abaixo. Eu havia despertado o ódio da confraria de velhas cultas e ricas da Recoleta. “Parece que há uma confusao entre feminino e feminidade, aquí”, sugeria uma, esclarecendo minha confusao conceitual e explicitando minha inferioridade ante a intelectualidade literária. “É um fato que homens têm mais dificuldade para entender Clarice”, dizia outra, supostamente referindo-se a algum estudo quantitativo no campo da cogniçao que eu, burro, desconheço. “Os homens nao estao dispostos a ter a sensibilidade que requer ler Clarice” – me informou uma bicha louquésima, deixando-me sem muitas opçoes: ou eu nao era homem ou nao tinha sensibilidade suficiente. E outra, a curadora, de cara repuxada, tentando me salvar: “mas é claro, Clarice é um gênio! Tanto que seus personagens masculinos soam tao verdadeiramente masculinos”. Ok, me calo. A mesa já era redonda. Eu nao ia ficar para ser o banquete. I´d rather immerse my body in a swimming pool. November 27 ParturienteEle acordou o bicho e, desde entao, nao pode dormir.
Pensa que é o calor. Talvez sejam os mosquitos. Ou o vento que entra, tornando impossível decidir-se entre cobrir e se mostrar.
Nao é nada disso. Ele sabe. A verdade é que ele acordou o bicho e por isso nao pode dormir.
Ouve sua respiraçao quente, a roçar-lhe as paredes do intestino. Agitado, inquieto. Quer sair.
Um cavalo?
Nao.
Desconfia.
Que o seu bicho é mais deforme. Mais violento. Mais negro.
Ele deseja, exige. Agora.
Ele está desperto e quer sair.
Tomar tudo. Em um só gole. Em um só jato. Em um só gozo.
E, entao, só entao, poderá, ele, voltar a dormir.
E, quem sabe, nao estará sozinho.
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Nao era o momento dele rebentar
Alguém me empresta algo de Sarah Kane? |
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